Durante a coletiva de imprensa realizada no primeiro dia da 45ª Convenção Nacional e Anual do Canal Indireto – ABAD 2026 ATIBAIA, Domenico Tremaroli Filho, diretor de Atendimento ao Varejo da NielsenIQ, apresentou uma pesquisa inédita sobre saudabilidade, termo que ainda não consta nos dicionários da língua portuguesa, mas que já ocupa espaço relevante nas estratégias comerciais da cadeia de abastecimento.
Segundo o executivo, a busca por uma vida mais saudável nunca esteve tão presente na rotina dos consumidores brasileiros. Alimentação equilibrada, prática de atividades físicas, bem-estar mental e controle de peso passaram a influenciar diretamente as decisões de compra, refletindo uma mudança estrutural no comportamento da população.
“Saudabilidade se resume a nutrição, saúde, bem-estar e perda de peso. Hoje, seis em cada dez brasileiros declaram estar acima do peso. É um mercado que movimenta cerca de US$ 6,3 trilhões globalmente e que tem projeção de crescimento de 7,3% nos próximos quatro anos. Enquanto isso, o PIB mundial deve crescer menos de 4% no mesmo período”, afirmou.
Os dados apresentados pela NielsenIQ mostram que 86% dos brasileiros já adotam ao menos um hábito considerado mais saudável em sua rotina. Entre os consumidores classificados como extremamente saudáveis, os impactos no consumo são ainda mais evidentes: esse grupo gasta, em média, 11% a mais em bens de consumo de giro rápido e visita os pontos de venda com maior frequência.
A percepção de um estilo de vida mais ativo também aparece em outros indicadores. O mercado fitness segue em expansão e uma das principais redes de academias do país prevê a abertura de mais de 300 novas unidades em 2026. Já as corridas de rua cresceram 85% em 2025, alcançando a marca de 15 milhões de praticantes e demonstrando o interesse crescente dos brasileiros por atividades físicas acessíveis.
Outros números da pesquisa reforçam essa tendência. Atualmente, 35% dos consumidores já leem os rótulos dos produtos antes da compra, 45% reduziram o consumo de alimentos industrializados e 59% afirmam estar dispostos a gastar mais com produtos que contribuam para a saúde e o bem-estar.
O impacto das canetas emagrecedoras
Outro fenômeno que vem transformando os hábitos de consumo é o crescimento das chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos da classe GLP-1 que ganharam popularidade nos últimos anos.
Segundo a pesquisa, esses medicamentos já estão presentes em 4,6% dos lares brasileiros. O potencial de expansão, porém, é significativamente maior: outros 26,1% dos domicílios demonstram interesse em utilizar o tratamento, sendo contidos principalmente pelo alto custo e pelo receio dos efeitos adversos.
A expectativa é que esse cenário mude nos próximos meses, impulsionado pela redução de preços decorrente do vencimento de patentes e pela ampliação do conhecimento da população sobre os medicamentos.
Todo esse movimento gera impactos diretos no orçamento das famílias. Entre os usuários das canetas emagrecedoras, 63% afirmam gastar mais de R$ 800 por mês com o tratamento, fazendo com que a despesa passe a disputar espaço com outros itens de consumo dentro do orçamento doméstico.
Mudanças no carrinho de compras
As transformações não se limitam ao orçamento. Elas também alteram profundamente a composição do carrinho de compras.
Segundo a NielsenIQ, categorias associadas a uma alimentação mais natural e menos processada ganham cada vez mais relevância, com destaque para frutas, legumes e verduras (FLV), além de produtos frescos, nutritivos e ricos em proteínas.
Em contrapartida, categorias tradicionalmente associadas ao consumo por impulso apresentam retração, como chocolates, doces, snacks, bebidas alcoólicas, bebidas açucaradas, pães e bolos.
O segmento de refrigerantes exemplifica bem esse movimento. Enquanto os refrigerantes sem açúcar registraram crescimento de 33% nas vendas, as versões tradicionais apresentaram retração de 3,4%.
Para Tremaroli, esse cenário deve ser encarado de forma positiva por toda a cadeia de abastecimento.
“Na minha opinião, trata-se de um impacto positivo. Algumas categorias perdem volume, mas outras crescem e geram margens mais atrativas para o varejo, tornando os negócios mais saudáveis. Além disso, pessoas mais saudáveis tendem a reduzir gastos com medicamentos para doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, liberando parte dessa renda para outras formas de consumo”, explicou.
Oportunidade para indústria, distribuição e varejo
A NielsenIQ destaca que essa mudança de comportamento está transformando o papel dos diferentes canais de venda.
O atacarejo, por exemplo, vem ampliando a oferta de serviços e categorias relacionadas à saudabilidade, investindo em áreas de hortifruti e em espaços dedicados a produtos voltados ao bem-estar e à alimentação saudável.
Para o varejo em geral, a tendência representa uma oportunidade estratégica. A combinação entre novos hábitos alimentares, maior prática de atividades físicas e preocupação crescente com qualidade de vida está modificando a forma como o brasileiro se relaciona com o consumo.
Nesse contexto, compreender esse movimento e adaptar o sortimento às novas demandas do consumidor passa a ser um diferencial competitivo para fabricantes, distribuidores e varejistas que desejam crescer n










