Consumo mais seletivo marca o início de 2026 no varejo

O varejo alimentar brasileiro encerrou o primeiro trimestre de 2026 com crescimento nominal tímido e retração real nas vendas, refletindo um cenário de consumo mais cauteloso e seletivo. De acordo com o Radar Scanntech de março, o faturamento avançou apenas 1,4% no período — índice abaixo da inflação — sustentado exclusivamente pela alta de 3,6% nos preços médios, enquanto o volume de unidades vendidas caiu 2,1%.

O comportamento do consumidor revela uma mudança relevante: a redução no tamanho do carrinho, com queda de 2,5% no número de itens por ticket, mesmo com fluxo de clientes praticamente estável. Em março, esse cenário se intensificou, com faturamento estagnado (+0,1%) e retração de 3,6% nas unidades, impactado por fatores como o efeito calendário — com o Carnaval deslocado para fevereiro — e um verão mais ameno, que afetou especialmente a venda de bebidas.

Entre as categorias, bebidas lideraram as perdas no mês, com queda expressiva tanto em volume quanto em valor, enquanto a mercearia básica sofreu pressão deflacionária, reduzindo o faturamento mesmo com leve avanço em unidades. O canal atacarejo também apresentou retração, indicando pressão justamente no formato mais associado à busca por economia.

Por outro lado, o relatório destaca o avanço consistente da premiumização. Produtos de maior valor agregado vêm ganhando espaço no carrinho, impulsionados pelo aumento da renda disponível da classe média e pela redução do imposto de renda para faixas mais elevadas. Em contrapartida, consumidores de menor renda têm reduzido o consumo de itens básicos, fenômeno associado, entre outros fatores, ao aumento dos gastos com apostas.

O resultado é um mercado mais polarizado: enquanto categorias sofisticadas crescem, itens essenciais enfrentam retração. A tendência, segundo a análise, deve se manter ao longo do ano, com crescimento do varejo sustentado principalmente por preços, queda no volume de produtos básicos e expansão de categorias premium.

Ricardo Amorim

Nesse contexto, o economista Ricardo Amorim, que fez uma análise especial do estudo, destaca que o mercado vive uma transformação estrutural no perfil de consumo. “As vendas têm crescido em valor, mas não em volume. Isso mostra que o desempenho está sendo sustentado por preços, enquanto o consumo efetivo segue pressionado”, analisa.

Segundo ele, dois fatores ajudam a explicar essa dinâmica: de um lado, o aumento dos gastos com apostas, que reduz a renda disponível principalmente das classes de menor renda; de outro, a ampliação da renda da classe média, impulsionada por mudanças no imposto de renda. O resultado é um mercado mais polarizado.

“Enquanto produtos básicos perdem espaço, categorias mais sofisticadas e de maior valor agregado ganham força. Esse deve ser o ano da premiumização no varejo alimentar”, afirma Amorim.

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