Clima ameno e cautela do consumidor marcam retração no consumo em setembro

O consumo no varejo alimentar registrou nova retração em setembro de 2025. De acordo com o Radar Scanntech, as vendas em unidades caíram -3,6% na comparação com setembro de 2024 e -5% frente a agosto de 2025. O principal fator por trás desse resultado foi o clima: enquanto setembro do ano passado esteve entre os mais quentes da história, as temperaturas mais amenas deste ano reduziram a demanda por categorias sensíveis ao calor, que responderam por 69% da queda total.

Entre as mais impactadas estão cerveja, sucos, refrigerantes, chocolates e biscoitos, que juntas concentraram 73% da retração em volume. Por terem preço médio 50% abaixo da média do varejo alimentar, essas categorias acabam elevando artificialmente o preço médio geral, mascarando a tendência de deflação que o setor vem registrando desde junho.

A cesta de bebidas foi a mais afetada, com queda de -11,2% em unidades e -4,3% em faturamento, pior desempenho do ano. Dentro dela, as bebidas alcoólicas representaram 39% da retração total, enquanto as não alcoólicas contribuíram com mais de 25% da queda. Já categorias associadas à indulgência e recompensa pessoal, como biscoitos e chocolates, também mantiveram o comportamento negativo observado ao longo de 2025.

Em paralelo, importante checar que em setembro, enquanto as vendas em unidades caíram -3,6%, o faturamento do varejo alimentar cresceu 2,5%. Com base nesses indicadores, o setor mantém alta de 5,7% em faturamento, sustentada pelo aumento de preços médios em torno de 7,3% em relação a 2024.

O cenário reforça a necessidade de ajuste dinâmico de sortimento, preços e promoções com base em tendências climáticas e comportamentais, garantindo resiliência e competitividade para o varejo alimentar brasileiro.

Supermercados resistem, atacarejos sentem mais o impacto

Na análise por canal, os supermercados mostraram maior estabilidade, encerrando o mês com queda de -2,5% em unidades, mas crescimento de 4% em faturamento.

Em contrapartida, os atacarejos registraram a pior performance: retração de -5,4% em unidades e leve queda de -0,1% em faturamento, impulsionadas pela redução de unidades por ticket e pela menor venda de bebidas.

A queda em volume nesse formato também reflete menor reposição de estoques por pequenos comerciantes e ambulantes, público relevante para o canal. No acumulado do ano, os atacarejos apresentam recuo de -2,8% em unidades, frente à queda de -0,7% nos supermercados, que seguem sustentando o crescimento de 6,7% em valor.

Desempenho regional e efeitos do clima

Todas as regiões do país registraram retração em unidades, com destaque para o Norte (-6,8%) e o Centro-Oeste (-5%), seguidas por São Paulo (-3,9%). O Norte foi a única região com queda também em faturamento (-0,5%), influenciada pelo volume de chuvas 3,5 vezes superior ao registrado em 2024.

As cestas de bebidas, especialmente cerveja, suco e refrigerante, além de chocolate e biscoito, foram os principais detratores nessas regiões.

Já as cestas de Pet, Mercearia Básica e Perecíveis apresentaram crescimento em unidades, enquanto as demais retraíram. O aumento do preço médio segue como principal fator de sustentação do faturamento.

Comportamento do consumidor e perspectivas

De acordo com especialistas consultados pelo Radar Scanntech, setembro reforça o movimento de cautela do consumidor, que continua fazendo trade down e priorizando itens essenciais em detrimento de produtos de indulgência.

Itens como frutas, legumes, frango in natura e massas instantâneas cresceram, enquanto cervejas, higiene e limpeza tiveram desempenho negativo.

Além do clima, o comportamento reflete a deterioração gradual da confiança do consumidor, mesmo em um cenário de baixo desemprego e estabilidade econômica. O varejo agora aposta nas grandes datas promocionais como Black Friday e Natal para reaquecer o consumo, especialmente em categorias discricionárias.

Estudos especiais

A edição mais recente do Radar Scanntech também apresenta uma série de estudos especiais, com destaque para a análise dos 15 anos da Black Friday no Brasil. Segundo o levantamento, 51% dos consumidores afirmam esperar pela data por confiarem nas promoções, 48% já têm uma lista pronta de compras e 81% das pessoas que compraram em 2024 pretendem comprar novamente em 2025.

Entre os fatores de escolha, preço aparece como o principal critério, seguido por qualidade dos produtos, custo do frete, tempo de entrega e variedade de ofertas. As cestas mais buscadas continuam sendo eletrônicos, vestuário, beleza e cuidado pessoal, casa e alimentação.

Outro destaque é o estudo sobre as cestas de verão, que mostra crescimento tanto no acumulado dos últimos 12 meses quanto na comparação entre Verão/25 e Verão/24. Em ambos os períodos, o aumento do faturamento foi sustentado pelo crescimento em unidades vendidas durante a estação mais quente do ano. O estudo também confirma a forte correlação entre temperatura e volume de vendas: em 67% das vezes em que há variação na média de temperatura, há variação correspondente no consumo. Na análise por canal, o supermercado se destacou pelo crescimento em faturamento, impulsionado pelo aumento do preço médio, acima do observado nos atacarejos.

Por fim, o estudo especial Scan Market, considerado o maior retrato do varejo alimentar brasileiro, aponta a evolução do refrigerante zero, que ganha espaço dentro da categoria graças ao aumento do volume vendido, mesmo diante de preços acima da inflação. Os estados do Sudeste e o Distrito Federal se destacam nesse movimento, registrando participação de refrigerantes zero acima da média nacional, reforçando a tendência de busca por opções mais saudáveis e com menor teor calórico no consumo de bebidas.

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